Sonho Lúcido e Yoga dos Sonhos

Em 2006, quando fiz minha primeira viagem a Europa, já chegando no velho continente, tive uma curiosa projeção em pleno voo. Encontrei-me com uma pessoa conhecida que a muito não via e conversamos sobre vários assuntos dos quais, depois, lembrei-me apenas um, relacionado a uma de nossas vidas anteriores.

Ele referiu-se a uma existência no Tibet, citando especificamente o século VIII, quando muitos conhecimentos sobre projeções conscientes e assuntos correlatos teriam sido criados e registrados.

Tempos depois, soube, para minha surpresa, que esse colega estava residindo em Londres. De alguma forma, a minha viagem provocou aquele encontro.

Mas afinal, o que ocorreu no século VIII no Tibet? Foram introduzidas nessa época a práticas dos 6 yogas, das quais a yoga dos sonhos é o mais conhecido.

O yoga dos sonhos é uma prática avançada de meditação tântrica do budismo tibetano que tem por objetivo promover o autoconhecimento, o autocontrole, a purificação e o desenvolvimento mental, servindo também como uma forma de nos preparamos para as transições de estados existenciais (a morte do corpo físico). Com o yoga dos sonhos pretende-se gerar nas pessoas um estado de permanente autoconscientização.

O objetivo da yoga dos sonhos é buscar a lucidez durante o sonho, ou, em outras palavras, a consciência de que o sonho é apenas um sonho. Com isso, tal como outros yogas, persegue-se a eliminação do sofrimento e a eliminação dos apegos que provêm da crença da separação sujeito-objeto na qual a perda de um objeto ao qual se apega provoca o sofrimento.

Outras denominações para o yoga dos sonhos são dream yoga (inglês) e Vajrayana (em sânscrito, círculo de diamante)

Segundo a tradição, os seis Yogas foram trazidos para o Tibete por volta do século VIII pelo mestre indiano Padmasambhava, fundador da Nyingmapa (Escola Antiga do budismo tibetano).  Padmasambhava teria recebido os ensinamentos por ele codificados de um misterioso iogue chamado Lawapa. Nos séculos que se seguiram, o budismo cresceu e floresceu no Tibet. Naropa (1016-1100 d.C.), iniciou a compilação dos seis yogas, tarefa que foi concluída por seu discípulo Marpa. Para concluir essa compilação, Marpa, fez uma cansativa jornada a pé para a Índia a fim de estudar com mestres de yoga, retornando depois para o Tibet para concluir sua tarefa.

Os seis Yogas de Naropa são:

tummo – o yoga do  calor interno (ou do calor místico)

gyulü – o yoga do corpo ilusório

ösel  – o yoga da clara Luz (ou da luz radiante)

milam – o yoga dos sonhos

bardo – o yoga do estado intermediário .

phowa – o yoga da transferência da consciência para o estado búdico

Nesse sistema, os sonhos são classificados em três tipos: sonhos samsáricos, sonhos de claridade e sonhos de clara luz, sendo os primeiros não lúcidos e esse último lúcido. O yoga dos sonhos pode facultar a interpretação dos sonhos, o uso de sonhos para as previsões e de cura, e o desenvolvimento de poderes psíquicos e habilidades de cura pode surgir naturalmente da prática continua da yoga dos sonhos e dos outros cinco yogas relacionados.

A prática do yoga do sonhos, como nos demais yogas tibetanos, começa por exercícios de meditação Zhiné a fim de desenvolver a concentração e aquietar a mente. Na segunda parte do treinamento, são trabalhadas as ações e comportamentos ao longo do dia, quando estamos acordados. Busca-se nessa fase eliminar-se os traços cármicos, o apego, a aversão e cultivar-se a memória para possibilitar a rememoração dos sonhos de clara luz (sonhos lúcidos). A terceira e última etapa, executada na hora de dormir, consiste em práticas respiratórias, corporais (a posição em que deitamos para dormir) e energéticas.

Tal como num estado de meditação profunda, o yoga dos sonhos conduziria as ondas cerebrais do praticante a um nível muito baixo, permitindo o isolamento do mundo externo, das sensações corporais e um maior contato com as raízes inconscientes das estruturas mentais, muitas das quais geram as consequências negativas que vivenciamos no mundo cotidiano.

É importante lembrar que outros tipos de yoga podem levar o praticante a ter sonhos lúcidos, mas esses, quando surgem, são apenas um efeito secundário. Em contraste, o yoga dos sonhos mira diretamente nos sonhos lúcidos.

O yoga dos sonhos é seguido pelo yoga do sono, também conhecido por yoga da clara luz cujo objetivo é manter-se a consciência durante o sono profundo quando a mente conceitual grosseira e os sentidos deixam de funcionar.

Finalizando, o que podemo almejar com a prática do yoga dos sonhos? Citando Tenzin Wangyal Rinpoche, autor do livro Os Yogas Tibetanos do Sonho e do Sono (atualmente o único livro a venda sobre esse assunto em língua portuguesa):

“Se uma pessoa não estiver consciente na visão, é improvável que esteja consciente no comportamento, Se não estiver consciente no comportamento, é improvável que esteja consciente no sonho. E se não estiver consciente no sonho, é improvável que esteja consciente no Bardo (dimensão extrafísica), após a morte (do corpo físico)”.

Para saber mais – Livros:

Livro Estado VibracionalLivro Experiências Fora do Corpo - Fundamentos

 

 

 

 

 

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2 comentários sobre “Sonho Lúcido e Yoga dos Sonhos

  1. Olá César. Acabei de ler seu artigo sobre Yoga dos Sonhos. Estou fazendo uma pesquisa sobre Marpa. Você teria alguma referencia bibliográfica interessante? Eu leio em espanhol e inglês fluentemente além de português, é claro. Qualquer indicação será imensamente apreciada.
    Adorei sua explicação sobre a Yoga dos sonhos. Simples, acessível e muito esclarecedora
    Obrigada

    Mariza

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